Notícias Cacautec

Indústria do chocolate cresce 8% e bate recorde de exportação

O setor brasileiro de chocolate vive um momento incomum: cresce em volume, cresce em faturamento e cresce em presença externa ao mesmo tempo, num período em que a matéria-prima principal passou pela maior crise de preços das últimas décadas.

Os números da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (ABICAB) mostram produção nacional de 814 mil toneladas em 2025, ante 805 mil toneladas em 2024. O faturamento do setor alcançou R$ 42,5 bilhões, com cerca de 450 mil postos de trabalho vinculados à cadeia. No comércio exterior, foram 37,8 mil toneladas exportadas para aproximadamente 168 países.

Crescer com cacau caro é um problema de eficiência

A leitura desses números fica mais interessante quando se lembra do contexto. A cotação internacional do cacau disparou a partir de 2023, puxada por quebras de safra na África Ocidental, onde se concentra a maior parte da oferta mundial. Fábricas do mundo inteiro viram o custo do insumo principal multiplicar.

Nesse cenário, crescer produção não é resultado de mercado favorável. É resultado de ajuste operacional. A indústria que conseguiu manter margem com cacau caro foi a que reduziu perda de processo, aumentou rendimento por tonelada e melhorou eficiência energética. Quem dependia de folga de custo para absorver ineficiência ficou pelo caminho.

Isso explica por que o investimento em maquinário se tornou tema central nas conversas do setor. Quando o insumo representa uma fatia maior do custo total, cada ponto percentual de desperdício evitado vale mais do que valia antes.

Onde o dinheiro escorre numa fábrica de chocolate

As perdas de processo mais relevantes se concentram em pontos previsíveis:

  • Sobredosagem na deposição. Produto entregue acima da gramatura declarada. Invisível no relatório, visível no estoque de matéria-prima.
  • Retrabalho por temperagem instável. Chocolate que cristaliza mal volta ao tanque e passa por novo ciclo térmico, consumindo energia e degradando o produto.
  • Refugo no resfriamento. Curva térmica inadequada gera trincas, fat bloom precoce e peças com desmoldagem incompleta.
  • Consumo energético em refrigeração. Túneis com isolamento pobre e controle rudimentar mantêm compressores em regime de carga alta desnecessariamente.
  • Tempo de setup e limpeza. Horas de máquina parada que não aparecem como perda de material, mas comem capacidade instalada.

Nenhum desses pontos se resolve com esforço do operador. Todos se resolvem com equipamento adequado.

O mercado interno ainda tem espaço grande

Um dado da ABICAB costuma ser subestimado: o consumo brasileiro está em torno de 4 quilos de chocolate por pessoa ao ano. Em mercados europeus e norte-americanos, a média fica entre 9 e 10 quilos.

Essa distância não é destino. É espaço de crescimento. À medida que renda e hábito de consumo se deslocam, a demanda interna tende a subir, e a indústria precisa estar dimensionada para atender sem depender de importação de produto acabado.

A sazonalidade brasileira reforça a necessidade de capacidade instalada bem calibrada. A Páscoa concentra uma parcela desproporcional das vendas anuais, e o setor chegou a abrir 14.558 vagas temporárias para a Páscoa de 2026, contra 9.946 no ano anterior. Fábricas que atravessam esse pico com equipamento no limite acumulam refugo, atraso e desgaste de máquina justamente no período de maior faturamento.

Inovação de produto pressiona o parque industrial

Mais de 130 lançamentos foram registrados para a Páscoa de 2026. Recheios diferentes, formatos novos, chocolates com maior teor de cacau, versões sem lactose, produtos com inclusões e texturas variadas.

Cada uma dessas variações tem implicação técnica. Chocolate com 70% de cacau tem viscosidade e curva de cristalização diferentes de um ao leite. Recheio com atividade de água elevada exige barreira de gordura adequada e controle rigoroso de temperatura na deposição. Inclusões sólidas mudam o comportamento de escoamento no dosador.

Uma linha rígida, projetada para um produto único, não acompanha esse ritmo. Fábricas que investiram em equipamento com ajuste de parâmetros por receita, troca rápida de bicos e controle térmico independente por zona conseguem lançar mais rápido e com menos perda de aprendizado a cada novo produto.

Exportação exige o que o mercado interno perdoa

Vender para 168 países impõe exigências que o mercado doméstico às vezes tolera.

Estabilidade em trânsito. Um contêiner pode passar semanas em travessia, com variação térmica ao longo do percurso. Chocolate mal temperado desenvolve fat bloom e chega ao destino com superfície acinzentada. O produto continua seguro, mas é rejeitado pelo comprador. A única defesa é cristalização na forma beta V bem estabelecida, o que depende de temperagem controlada e resfriamento com curva adequada.

Gramatura dentro da tolerância legal. Cada país tem regra própria de conteúdo líquido declarado. Variação de dosagem que passa despercebida aqui pode gerar autuação lá.

Rastreabilidade documentada. Compradores europeus exigem cadeia de custódia verificável, especialmente sob a regulamentação de produtos livres de desmatamento. Isso pressiona a fábrica a manter registro por lote, o que só é prático quando o processo é controlado por parâmetro e não por ajuste manual.

Constância entre lotes. O importador que aprovou uma amostra espera que o contêiner do semestre seguinte tenha o mesmo perfil. Reprodutibilidade é função de processo, não de talento individual.

Por que o maquinário nacional entrou na conta

O crescimento das exportações de derivados de cacau reforça a tese. Só a Bahia registrou alta de 41,32% nas exportações de derivados no primeiro semestre de 2025, somando US$ 254 milhões.

Para acompanhar essa demanda, fábricas de pequeno e médio porte precisaram expandir capacidade. E aí aparece uma restrição prática: equipamento importado tem preço em moeda estrangeira, prazo de entrega que pode passar de seis meses e assistência técnica dependente de agenda internacional. Para uma fábrica que processa algumas toneladas por mês, esse conjunto inviabiliza o projeto.

O maquinário nacional resolve a equação por três caminhos. Reduz o custo de aquisição ao eliminar câmbio e imposto de importação. Encurta o prazo de entrega. E oferece suporte técnico com tempo de resposta compatível com uma linha que não pode ficar parada.

Existe ainda a questão do dimensionamento. Equipamento importado costuma vir em capacidades padronizadas para o mercado de origem, frequentemente grandes demais para a realidade brasileira. Máquina superdimensionada opera fora da faixa ótima, consome mais energia por quilo produzido e imobiliza capital sem contrapartida. Fabricantes que projetam sob medida ajustam vazão, número de bicos, comprimento de túnel e capacidade de tanque ao volume real da operação.

O que observar daqui para frente

Três movimentos merecem atenção de quem planeja investimento no setor.

O primeiro é a acomodação do preço do cacau. Se a cotação recuar, a pressão por eficiência diminui, mas as fábricas que já ajustaram processo mantêm a vantagem de margem.

O segundo é a consolidação do segmento premium. Chocolates de origem, bean-to-bar e alto teor de cacau crescem em participação e sustentam preço médio mais alto, o que muda o cálculo de retorno sobre equipamento de precisão.

O terceiro é a exigência regulatória crescente nos mercados de destino, tanto sanitária quanto ambiental. Fábricas com processo documentado e equipamento em conformidade sanitária atravessam essas mudanças sem sobressalto. As demais descobrem o problema quando o pedido é recusado.

Crescer 8% num ano de insumo caro mostra que a indústria brasileira de chocolate aprendeu a operar com menos folga. Sustentar esse ritmo depende de continuar investindo onde a folga foi conquistada: no chão de fábrica.

Outras notícias